sábado, maio 06, 2006

Terna Saudade

A minha avó materna chamava-se Amélia. Era eu muito pequeno, com apenas 5 anos de idade quando faleceu. Mesmo assim, no sotão da minha memória, ainda encontro a sua imagem, presa dos movimentos, já que nova ficou paralitica; lembro a sua humilde casa em Santa Clara - Coimbra e de a visitar com frequência com minha mãe, mas as memórias de esse tempo longínquo não conseguem outro alcance.

A minha avó paterna, a Maria da Graça, uma mulher elegante e bem disposta, mas marcada pela dura vida que o regime salazarista lhe proporcionou. Nascida numa linda aldeia da então Beira Alta, no concelho de Oliveira do Hospital, mesmo na pontinha desse concelho, quase a beijar o concelho vizinho de Seia, de nome: Alvôco das Várzeas. Sem instrução, como quase toda a gente, o que naquele tempo era uma moda e mais do que isso, um passaporte para ir trabalhar de sol a sol para a casa rica lá do sitio a troco de um caldo de água e farinha. Lembro bem as rugas na linda cara de minha avó, contavam a vida sofrida de uma época que foi rude e cruel para aqueles, que como ela, tiveram que sofrer no corpo e na alma as agruras de uma vida de inexistência, onde apenas os "senhores" (ricos ou das casas ricas) tinham direito a existir na plenitude da dignidade humana.

Dando um salto nesta história (ou estória - não sei bem), com 14 anos fui viver para Alvõco, e durante um certo período ia dormir a casa dos meus avós paternos.
Uma casa muito pequena, humilde, mas também muito reconfortante. A um canto da minúscula cozinha, lá estava a lareira, sempre acesa, onde minha avó cozinhava, e a comida ali feita tinha um sabor que em mais lado algum encontrara. Era naquela lareira, que minha avó Graça preparava o "café" de cevada, que eu e meu avô partilhávamos por volta das 7 horas da manhã, naquelas manhãs frias de Inverno e que me sabia a um manjar de reis. Nessa altura acordava bem disposto, pois sabia que tinha o "café" pronto e a boa disposição da minha Avó.

Avó Maria da Graça, está dentro do meu coração, partiu em tempo para uma viagem (e eu estava noutra viagem), para muito longe, muito longe - mas como diz a cantiga: "onde nos vamos encontrar".
Nunca lhe disse Avó, mas o seu "café" é (ainda lhe sinto o cheiro e o sabor) delicioso. Tenho saudades do seu olhar, do seu sorriso, de quando me chamava herege... Avó: GOSTO MUITO DE SI.

Com este humilde texto, apenas pretendi HOMENAGEAR TODAS AS MÃES (e minhas Avós).
Muito especialmente a MINHA MÃE (Adoro-te MÃE) e a MÃE do MEU FILHO (Amo-te MULHER por quem um dia me apaixonei).

8 comentários:

Carlos Ramos disse...

Venha daí um abraço e parabéns pelo texto.Quanto à visita,aguardo.
Fraternalmente
.'.

Moura disse...

Isto é que é escrever bem! Tem mesmo jeito para a escrita e um sentido comemorativo como foi no 25 de Abril e agora Dia da Mãe!
Eu no meu blog estou "preso" ao tema...mas qualquer dia faço um mais livre e radical! Tenha eu tempo...
Um abraço do "Mourix"

Teresa Durães disse...

Que todas as suas Mães (as presentes e ausentes) tenham um bom dia!

luís antero disse...

comovente, caro brother. a avó tb te dava notas de 20 escudos?
abraço grande

Tozé Franco disse...

Gostei do texto e da forma sentida como está escrito.
Uma abraço e continue.
Um abraço para Alvôco.

ManuelNeves disse...

Agradeço a todos as palavras e os incentivos deixados.
Fraternalmente

a d´almeida nunes disse...

Caro Manuel Neves

Vou assinar este livro de visitas só para me apresentar.
Vim aqui cocurejar (bem, ainda não anoiteceu mas eu sou daquelas corujas que voam a qualque hora do dia ou da noite...mais tarde poderei voltar a falar desta expressão muito popular entre os radioamadores, pelo menos os de "antigamente"...) seguindo as pistas escancaradas pelo "Mourix".
Pelo que li, digo-lhe já que gostei e que vou passar a ser um leitor assíduo deste cantinho da blogosfera...esta teia que cada dia se renova, se reforça, tende para o Infinito...até onde? até quando?
Um abraço que já quase que o conheço, penso eu!

aavozaida disse...

Meu amigo
Sou mãe e sou avó.
O seu texto tocou-me fundo.
Permita-me que o abrace.