quarta-feira, fevereiro 22, 2012

Uma Estrela que Brilha e Sorri - 2

Este texto (agora revisto e actualizado) foi publicado em Fevereiro de 2007, aquando da passagem dos 20 anos da partida do José Afonso. Cinco anos passados, como o engenho e falta de tempo me atraiçoam, mas não querendo deixar passar esta data em claro, volto a este texto, para mais uma vez e sempre recordar José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos - ZECA AFONSO.


Quando observo o céu, há uma estrela que brilha mais que todas as outras. Ás vezes parece sorrir-me, num movimento lento e gracioso como que a querer abraçar-me. Pisco-lhe o olho, partilho com ela o meu estado de alma. Nos momentos mais incertos da vida como que lhe sussurro cá de baixo, ela responde com mais brilho e fico muito mais calmo e tranquilo.
Sei que nessa estrela moram: o meu irmão Luís Miguel, os meus queridos Avós, a minha boa sogra D. Silvina, o meu primo e amigo João Brito, os meus amigos Luís Falcão, Licínio Buco e João Carlos e a minha colega Margarida, que num tempo partiram para longe, para muito longe e agora vivem naquela estrela. Na mesma morada vive um músico, um grande músico, mas fundamentalmente um homem de excepção, um cidadão vertical, utópico quanto baste para tanto encanto e segurança dar aquela estrela, chama-se: JOSÉ AFONSO – ZECA AFONSO.

Hoje escrevo para ti e ao escrever para ti, redijo para quem contigo mora na estrela que me ouve e sorri. Tive a felicidade de te ouvir e ver em algumas ocasiões, de te tocar (num singelo cumprimento no ex-teatro Avenida em Coimbra – todo eu tremia, bem me lembro), és uma grande referência de vida, um exemplo que procuro lembrar em cada dia que passa, um rebelde solidário como alguém já te chamou.
Sabes, hoje que perfazem 25 anos sobre a tua partida, todos falam de ti, os que sempre falam e os outros, mas é bom que falem de ti, da tua vida, da tua luta, da tua constante preocupação com os outros, do dinheiro que não tinhas, da doença que te obrigou a partir. Dizia o Álvaro de Campos num seu poema, que depois da morte só se lembram de nós no dia em que faríamos anos de vida e nos dias em que fazemos anos que morremos, pois que assim seja; eu por mim, continuarei a falar Contigo e com os teus Companheiros de estrela sempre que a alma mo peça, dia após… dia.

Por aqui, neste “Mar Largo”, mora a “Incerteza” e a “Menina de Olhos Tristes” “Aquela Moça de Aldeia”, já foge, foge “No Comboio Descendente” dos novos “Vampiros” da democracia que ajudaste a fundar. O nosso Portugal chora lágrimas de sangue, a miséria instalou-se, como sabemos são "Contos Velhinhos" e com esta "Incerteza" faz-nos falta a tua “Utopia”, eles não sabem que "O Sol Anda lá no Céu", mas nós sabemos que a utopia faz parte da vida e quando chegar um “Maio Maduro Maio”, abriremos a voz, num "Mar Largo", "Solitário" como um “Cantar Alentejano” e em “Grândola, Vila Morena” e em toda a parte “O Que Faz Falta” é o “Pão que Sobra à Riqueza” ser equitativamente distribuído.
Hoje, na nossa terra vivemos no "Lago do Breu" e “Com as Minhas Tamanquinhas” procurarei ali, acolá e em “Terras de Trás-os-Montes” o "Senhor Poeta" nos dirá “Como se faz um Canalha” porque a fome já chega aos “Índios da Meia-Praia” e ao "Menino do Bairro Negro", hoje um "Coro de Caídos" dizem-nos que são outros os “Fantoches de Kissinger”, mas eles andam por aí, em "Altos Castelos" disfarçados, com nomes vários espalhando o terror económico por terras da Grécia, Portugal, Espanha e "A Morte saiu à Rua" no Iraque, Palestina, Afeganistão. Precisamos de “O Homem da Gaita” para que toque a “Chula da Póvoa” e que “Venham Mais Cinco” para cantar o “Hino à Liberdade”.

O Mondego recorda-te numa sossegada Balada, eu sinto uma “Dor na Planíce” das minhas emoções sempre que tentam dar uma “Canção de Embalar” no “Natal dos Simples”. “O País vai de Carrinho” e no meio da “Canção do Medo” não sabia se havia de me revoltar ou esperar pela “Canção da Paciência” entre “Verdade e Mentira”.
És o ”Menino D’oiro”, o “Senhor Poeta”, foste “Solitário” mas sempre Solidário.
Sei que tens “Saudades de Coimbra” essa do “Choupal até à Lapa”, também temos saudades da tua presença, mas tu estás entre nós e vives naquela Estrela que brilha tanto para mim!

AMO-VOS HABITANTES DA ESTRELA QUE BRILHA E SORRI!!!

1 comentário:

as-nunes disse...

Caro amigo Manuel Neves

Texto empolgante sobre esta figura mítica da música de intervenção portuguesa.

Continua extraordinariamente atual.

Bem podemos olhar para essa estrela que também a vejo aqui em Leiria, mas parece que, para além do apoio psicológico, não podemos esperar mais resultados...

Zeca Afonso, sempre
Um abraço