sábado, outubro 23, 2010

Negra Alma

Hoje somos presenteados com um texto de Neves Braga. Conheço Neves Braga, desde o inicio dos anos 60 do século passado. Miúdo reservado, tímido, mas muito curioso e perspicaz. Os anos foram passando, e hoje, com quase cinquenta anos, o Neves Braga, com o seu 1,90 e 100 kg de peso, cabelos (poucos) desgrenhados e compridos, deixou o ensino e dedica-se à escrita, assim como ao aprofundamento das castas do vinho que mais gosta, nomeadamente a casta baga, que como se sabe está na origem do vinho da Bairrada.
Desiludido com a vida, revoltado com os estado das coisas, frustrado com os vários (des)amores da sua vida, fui encontrá-lo entre uma garrafa de vinho a meio e um monte de papeis semi-escritos, disse-me: “senta-te e bebe um copo, já te dou o teu texto”…


Teremos alma?!
Eu tenho! É negra!
E negrume é a sua alegria
É raiva à solta
É revolta contida
Mar agitado
Tornado destruidor
Alma, sem amor
Carvão é a sua cor
Inferno o seu destino
Tortuoso o seu caminho
Por entre veredas
Escuras, húmidas
Serpenteando a vida
Tropeçando nos Deuses
Mergulha na escuridão
Nessa noite contida
Onde perdidos
Nos encontramos
No alto da serra
Incendiada de Luz
Que queima a paz
Conduz a guerra
Dos desencontros
Desta vida morta
Que não ressuscita
Holofotes cegam-me
Vivo na penumbra
A Sombra é a minha vida.

Sim! Eu tenho alma!
É minha! É negra!
E negrume é a sua alegria

9 comentários:

J. Pombo disse...

Parabéns ao autor e um abraço aos dois!! J. Pombo

ManuelNeves disse...

Obrigado Zé!
Darei um abraço ao Braga.
Um para ti também.

Anónimo disse...

:)Um bonito poema!
Mas quem escreve assim está apenas cego, daltónico, ou não tirou os óculos de sol quando olhou para sim.., não pode de forma alguma ter uma alma negra!.. apenas se escondeu por detrás de uma nuvem.. ;)
Beijinhos, A.

ManuelNeves disse...

Caro(a) Anónimo(a)

Embora perceba o seu desalento, também dá para perceber que não conhece o autor do texto (Neves Braga), pois, quer se goste ou não é esta a visão que tem de si e do mundo que o rodeia, sem tirar nem pôr.Estou à vontade para o revelar, pois sou intimo desse ex-professor, agora bebedor de letras e apreciador de vinho.

Maria João disse...

Olá Amigo!
Não conheço o autor desde os anos 60, mas admiro-o na sua forma de estar, escrever e sentir. Apesar das referências ao peso(versus massa), acho que está a usar a balança errada (ontem cruzei-me com o autor, por breves instantes e pareceu-me elegante).
Relativamente à cor da alma, admito que existam dias em que a cor não pode ser outra. Mas...também há dias (cada vez mais raros!) em que o sol brilha e a vida nos sorri e ai o negro transforma-se numa outra cor que nos aquece e dá força.
Um grande abraço.
M. João

ManuelNeves disse...

Olá Maria João, é bom ver-te por aqui. Não sabia que também conheces o Braga, se calhar foi teu colega em alguma escola por onde passaste. No entanto, temos percepções diferentes da realidade, pois ainda no fim de semana estive com o Braga, e garanto-te ele pesa mesmo 100 KG, barriga inchada devido ao facto de o seu figado estar inflamado de tanto vinho ingerir.
Quanto ao poema, quem conhece o Braga não se admira,é a sua forma de estar e ver o mundo.

Tozé Franco disse...

Ora viva caro amigo Manuel Neves.
Depois de uma grande ausência, eis-me de regresso este canto que tanto admiro. Excelente poema. Ainda hoje tive a sensação que tinha a alma negra e, quando isso acontece, tenho medo do futuro e do que ele possa trazer. Problemas de quem todos os dias lida com o mais variado tipo de jovens. Vale, que outros me dão a volta e me fazem acreditar que vale a pena.
Um abraço para todos.

ManuelNeves disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
ManuelNeves disse...

Viva, ToZé. Obrigado pela sua visita. Pelo pouco que conheço de si, sempre o achei um optimista, um positivista, um observador das coisas boas da vida, que sabe retirar o que há de melhor em cada pessoa que consigo se cruza neste caminho, nem sempre fácil de trilhar. Já na última visita que fiz ao seu blog (sim nunca o deixei de espreitar), senti um certo desânimo, que mais uma vez demonstra no seu comentário. As almas negras são um estado passageiro, ou então de alguém que já não quer nada com a vida, como acontece com o Neves Braga. Quero acreditar que o futuro só pode ser risonho, os jovens têm dias... e sabe-se lá o que ás vezes fazem para colmatar carências, abandonos, incompreensões, e mais sei lá o quê!
Um Abraço