quinta-feira, agosto 16, 2012

Férias em nenhures! (dia 1)


Tinha um desejo escondido desde o início dos anos oitenta de percorrer a pé, só e sem destino os recantos deste nosso belo País. Passados mais de 30 anos, foi desta. A família foi de malas aviadas para o Alentejo, usufruir de um parque de campismo de 4 estrelas e meia (vem no roteiro campista e tudo) e cá o rapaz fez-se à estrada, sem mapas nem destino traçado, os objetivos são percorrer zonas que desconheço totalmente, margens de rios, tabernas e pequenos cafés das aldeias que encontre, conversar com pessoas de todas as idades, raças e credos com que me cruze, tentar conhecer a fauna e a flora do caminho.
Peguei na velhinha mochila do Tácon (alcunha do meu amigo Luís) – lembras-te Zé Agostinho?! – na vetusta tenda André Jamet e num anorak já roçado. Na mais recente Decathlon comprei umas botas de caminhar, umas meias fofinhas e um bastão, e não esqueci do anti repelente Previpic do Laboratório Medinfar, excelente!

Dia 1 – São 7 da manhã, cheguei à Rodoviária de Coimbra, vou apanhar um autocarro para o Porto, a partir daí não sei, apanharei outro autocarro para parte incerta e sairei em qualquer lugar que me pareça simpático. Não levo mapa (nem GPS), nem telemóvel, nem nada que se assemelhe a eletrónica, não fora ir calçado e mais parecia um frade Franciscano.
Cheguei ao Porto por volta das 10,40h, mas ás 11,07h, já estava sentado num autocarro que embora antigo ainda era razoavelmente confortável, o motorista e mais 5 idosos e uma moçoila de peitos grandes compunham o resto da companhia de viagem ao incerto. Comprei bilhete para o destino final (que só direi no fim das crónicas) 
Saímos da cidade, deixámos o reboliço próprio da metrópole e sem dar conta já me encontrava numa estrada sinuosa, carregada de verde em cada margem, consegui identificar pinheiros, castanheiros, mas também alguns eucaliptos. Parámos numa aldeia, entraram duas mulheres já entradas na idade, ambas traziam um cesto à cabeça que pousaram enquanto o motorista descia para acondicionar os ditos cabazes na arrumação do autocarro, sentaram-se por detrás do condutor. Uma perguntou: “ então António, a tua mulher já voltou para casa?”, o homem não respondeu, e a senhora continuou: “deixa lá, ela sempre foi assim tresmalhada mesmo quando era solteira, andava sempre de feno em feno, já se esperava. Mas tu tem calma, és um rapaz trabalhador, respeitador e até bem apessoado, com certeza que arranjarás outra que te mereça. Coitadinha é da tua filha, só com 6 anos e já praticamente sem mãe, ai, Deus me perdoe e me proteja”. 
O Sr. António, não disse uma única palavra, mas reparei na sua veia jugular a aumentar de tamanho, tal foi a força que teve que fazer para se conter.
A vegetação continua luxuriosamente verde, percebo agora no fundo do vale uma linha de água, parece-me um rio ou um ribeiro, não sei bem. Estou a gostar em particular deste trajeto, a continuar assim sairei na próxima paragem. Ora aí está, mais uma pequena aldeia e mais uma paragem, sai a rapariga das mamas grandes, desço atrás. A aldeia não é muito grande, um conjunto de casas de arquitetura rural, com pedras de granito, vêem-se espigueiros e o chão negro é empedrado. Como até aqui, a vegetação muito verde com medas de colmo a encher o espaço vazio.
Estou exausto, com fome e sede. Procuro um café, desço por uma rua estreita e avisto uma placa dos CTT, penso que será uma mercearia, apresso o passo, nem que seja para comer umas bolachas e um pouco de água. Bingo! Mercearia e café. Entro neste último, dou a salvação a quem se encontra, três homens já bem entrados na idade e mais quatro, estes entre os 25 e os 50 anos. Respondem em uníssono: “boa tarde”. Dirigi-me ao balcão, por detrás deste estava um homem de boina na cabeça, camisa desapertada e barba por desfazer. “Viva”, comecei por dizer, “cheguei agora na camioneta e estou com fome e sede, que se pode arranjar?”. 
Olhou para mim com ar de desconfiado, mas lá acabou por dizer: “posso arranjar-lhe uma sandes de presunto, ou de queijo das nossas cabras, é muito bom”.
“Uma sandes bem aviada de presunto, que o queijo é muito forte e sinto-me fraco e uma Super Bock, se faz favor”.
“Já volto”, replicou o homem.
Reparei, assim como não quero a coisa que os outros homens também olhavam para mim com estranheza e cochichavam entre si. Chegou a sandes, duas fatias bem grandes de pão caseiro, uma fatia enorme de presunto e a dita cerveja. Meu Deus, estou no paraíso. Percebi que o senhor que me atendera se chama Carlos, trabalha como madeireiro é o proprietário do estabelecimento, que é comandado pela esposa, mas que hoje fora ao médico por “causa da menopausa”, referiu o Sr. Carlos a um dos clientes.
Cheio de curiosidade, lá me perguntou: “então e o senhor de onde vem?”
“Dos lados de Coimbra”
“Vem de longe, mas não leve a mal que lhe pergunte, para onde vai com esse saco ás costas?”
Fui sincero e respondi: “olhe, não sei, por aí”.
O burburinho na sala aumentou, o homem desviou o olhar e ficou com um ar ainda mais desconfiado. Pedi um café, paguei e voltei rua abaixo. Por aquela calçada irregular, sempre a descer fui dar a um rio. Afinal, era isto que pretendia, estar só, passear junto pelas margens dos rios, olhar para casas gastas pelo tempo, observar vetustas árvores e a fauna por ali existente, embora confesse que estava com muito receio de encontrar cobras, bichos muito interessantes mas que me causam repulsa. Interessava-me reencontrar com um certo Portugal romântico e nostálgico, egoísmo puro e duro, bem sei. Andei cerca de duas horas e meia, pela margem, languidamente deixei-me levar pela beleza da paisagem e do rio que corria sem sobressaltos. Atravessei uma ponte, e após mais duas horas de caminho, e já a começar a desesperar por não encontrar onde ficar, encontrei uma aldeia. Mais pequena que a primeira, pareceu-me e com razão. Café ou mercearia não havia, passava lá uma carrinha dois dias por semana para vender os bens essenciais. Junto à capela, três homens conversavam. Abeirei-me deles e depois de os salvar, perguntei: “não sabem onde posso pernoitar? Aqui não há pensão e preciso de dormir em algum lado, assim como aconchegar a barriga.”
Um dos homens – o Sr. Alberto da Ludovina – assim era conhecido, disse: “o home, não se preocupe, se quiser fica em minha casa, tenho lá um quarto vazio que pertencia ao meu filho que emigrou para a Suíça, já se sabe é uma casa humilde, não há luxos, mas se vossemecê quiser pode lá ficar esta noite.”
Claro que agradeci, com a canseira que estava qualquer coisa era um hotel de 5 estrelas, quanto mais uma casa. Seguimos por uma rua estreita, e mais à frente estávamos a entrar na casa do sr. Alberto.
“Ludovina, hoje temos uma visita, poe mais água no caldo”, gritou ele para a mulher. Ludovina, surpreendida pela notícia, vem ver de quem se trata, ao que Alberto se apressa a dizer: “mulher, este senhor está por aqui de passagem e ofereci-lhe guarida, dorme no quarto do nosso rapaz e come o caldo com a gente”. Ludovina, mulher alta e forte, não respondeu, acenando afirmativamente com a cabeça.
Sentei-me à mesa, o caldo estava muito bom assim como o naco de pão com queijo de cabra curado e o tinto avinagrado. Pedi licença para me levantar, lavei-me e deitei-me. Estava mais morto que vivo e aquele quarto parecia o éden.  

2 comentários:

as-nunes disse...

Viva, meu caro amigo Manuel Neves

Parece que vim parar ao sítio certo.
Então não é que, agora aos 65 anos, também me anda a dar umas ganas de andar por aí uma temporada, por algures, de preferência aí para o Norte, Nordeste? O problema é que a minha mulher não ia alinhar num esquema como este, o que está a começar a contar-nos.
Pode crer que vai ter aqui um leitor assíduo. Fiquei entusiasmado com a ideia de o ir acompanhando.
Pela amostra que nos deixou deve ser uma aventura de espantar.
Como eu gostava de fazer o mesmo!
Quem sabe, um dia destes ainda ponho os pés ao caminho!

Então boa viagem, bons encontros e usufrua da paisagem e do ambiente que está a encontrar!

Até à próxima.
Um abraço, força nas pernas!

António

esse disse...

Gostei muito.