segunda-feira, agosto 23, 2010

Excursão à Praia


Estamos em pleno verão. Muito calor, o sol a brilhar, biquínis na praia, a areia a escaldar, o mar mais ou menos sereno, como no verão. Por força das nossas travessuras a Mãe natureza presenteia-nos com temperaturas anormalmente altas, nós ajudamos com as matas por limpar, o fósforo criminoso, alguns ventos fortes, e aí está a confusão instalado tirando vidas a heróicos Bombeiros e o desassossego de populações inteiras. A todos os Bombeiros o meu grande Obrigado e a minha homenagem!

Toda esta conversa, apenas para relembrar que estamos no verão e que verão lembra praia (da qual pessoalmente não sou adepto), mas que me fez lembrar o meu compadre Zé, num certo dia no litoral. O meu compadre Zé (e também a minha comadre Maria) adora excursões. À uns anos atrás (quando o verão ainda era verão) decidiram ir numa dessas viagens organizada pelo Sr. Presidente da Junta, ou pelo Sacristão da Paróquia, já não me recordo bem, a uma praia da zona de Peniche. Durante o caminho esgotou-se o reportório do Tony Carreira e família, mais Ágata, Emanuel e umas quantas cantigas do setubalense Toy. Paragem a meio da manhã para “verter as águas” e esticar as pernas que a idade já não perdoa, mais um bolo de bacalhau e um copo de branco, para acalmar o estômago que a esta hora já tinha dado recado da malga do café e do bocado de broa com marmelada caseira. Lá subiram para a “camioneta da carreira” e agora de garganta mais fresca, toca a reassumir o reportório das cantigas, sempre acompanhadas pelo cavaquinho do António Assobias. Por volta do meio-dia, num pinhal perto de Peniche, foi ver a caruma (ou fagulhas, ou agulhas, ou bicos, consoante o local de onde esteja a ler) coberta de mantas de farrapos coloridas, caixas de plástico de onde surgiam como por magia: arroz de tomate, pernas de frango frito, coelho estufado, frango de churrasco, bolos de bacalhau, rissóis e até feijoada que alguém levava. Não esquecendo os garrafões de tinto e branco (especialmente tinto) e umas quantas cervejas ainda frescas.
Depois deste repasto e ao som do cavaquinho do já citado António Assobias, dançaram-se umas modas para ajudar à digestão, já que o estômago estava bem pesado e assim a dança sempre ajudava a remoer. Findo o bailarico, lá seguiu o passeio directo ao seu destino final, a tal praia lá para os lados de Peniche. Chegados, dispersaram-se pelo areal, fino e duro, onde surfistas equipados a rigor tentavam mostrar as suas habilidades, embora sem sucesso já que a acalmia do mar não o permitia. Lá mais longe, observava-se o arquipélago das Berlengas (ilha da Berlenga, Farilhões e Estelas) importante pela sua fauna e flora.
Perante este quadro, o meu compadre Zé, arregaçou as calças e vai mar adentro aí uns quinze metros, que a maré estava baixa e a água aprazível, de repente, deu um salto, caindo de costas no oceano, bracejava e gritava algo que ninguém entendia. Quando finalmente saiu da água, puxado pelos outros excursionistas e estendido na areia quente, lá conseguiu dizer:
- Anda aí uma garoupa de óculos escuros tipo “RayBan”. Que susto, que susto...
Um veraneante contou que possivelmente o que o compadre Zé tinha observado, foi os seus óculos Rayban, que tinham caído à água em cima de algum carapau. Mas, não senhor! Foi uma garoupa de óculos escuros – afirmava o compadre Zé, completamente certo do que afirmava.
Assim, e mais para o fim do dia, depois do Zé ter secado a roupa (tendo ficado todo o tempo em ceroulas), bebido mais uns copos e comidos uns quantos rissóis e croquetes feitos pela D. Celeste, mestre de culinária e má língua, lá foi o pessoal para a camioneta da carreira, enquanto o António Assobias lá tocava no seu cavaquinho e cantava:

De óculos escuros
Andava uma garoupa
Nadando de costas
Com uma grande poupa

O Zé foi ao mar
Molhou as ceroulas
Uma garoupa a nadar
Deu-lhe um ramo de papoilas

Ainda hoje, o tema é debatido na taberna do Ti João do Bacalhau, e a dúvida persiste. Será que a garoupa era mesmo uma turista de óculos de sol vinda dos Açores até terras de Peniche? ...
E quem sabe?! ...


4 comentários:

Graça Pires disse...

Obrigada pela visita e pelas palavras deixadas no meu "Ortografia". Passarei por aqui outras vezes.
Um abraço.

SAM disse...

HAhahahahahahahahaha Eu estou rindo muito*. Adorei esta excursão. Devia ter ido hahahaha. Aqui também o que não falta é situações semelhantes rsrs. Gostei muito. Obrigada pela visita e por este texto maravilhoso.

Bom domingo. Beijos

AC disse...

Grato pela visita.
Já espreitei as peripécias do Zé na praia, em Peniche, e passarei amiúde, pois já me tornei seu seguidor.

Abraço

as-nunes disse...

Tenho a impressão que tenho andado a trocar o nome do Manuel Neves em comentários que aqui tenho deixado.

As minhas desculpas. A mim também acontece que me chamam amiúde, Neves em vez de Nunes. Contingências de memórias afanadas.

Quanto a esta história do Zé na praia está pitoresca e muito bem contada.
Ainda em Junho andei pela praia de calças arregaçadas. Claro, apanhei uma molha!
Uma abraço
António