sábado, julho 22, 2006

Estou Triste !

Este post é atípico em comparação aos que até agora tenho escrito. Não haverá alegria na escrita, porque não me sinto alegre; menos irónico que o usual, mas um bocadinho irónico, já que a ironia é parte importante da minha escrita, um legado do Eça. Será um post sentido, um pensar alto, um grito na blogosfera, uma manifestação de tristeza, pois a tristeza também faz parte de nós. Quando escrevo neste espaço, é para todos e para ninguém, mas comovidamente agradeço aos que regularmente me “visitam” e comigo partilham este singelo espaço. Principalmente a esses (eles sabem quem são), reitero os agradecimentos e peço desculpa pelo meu estado de alma.


Estou triste! Estou muito triste, zangado por estar triste, mas estou triste! O meu coração bate mais pausadamente, a cada batida sinto uma pequena dor, pequena mas profunda que bate no meu ego, vizinho da alma.
A fonte secou, o menino já não joga à bola, a boneca da menina não sorri, o sol brilha a falso e o rio serpenteia a desgraça do momento que passa.
A semana que hoje termina foi difícil, especialmente a sexta-feira (e não era dia 13); poderei divagar sobre a guerra Israel/Palestina/Líbano, em nome de quê ou de quem se matam crianças?! Crianças é sinónimo de inocência e amor, matam-se inocentes?! Em nome de um Deus maior ou menor, de uma posição geográfica, de conflitos antigos; mas resolve-se assim?! À pistolada?! Os Homens ainda não aprenderam a comunicar entre Homens?! A partilhar e a resolver os problemas que os afligem sem o emprego da força pura e dura?!

Estou triste! Reguei as plantas do jardim, mais as árvores do quintal, falei com elas, dei-lhe algum carinho, mas as plantas do meu jardim e as árvores do meu quintal definharam. Tenho pena. Tão boas ouvintes elas eram, ouviam-me com paciência, nunca teriam uma palavra de desagrado e um dia recordo-me, falava eu no semblante das pessoas do meu País, também elas tristes, quase sem esperança, neste tempo medíocre em que vivemos, quando reparei que no cimo do pessegueiro um pardalito ouvia atentamente o que eu verbalizava, quando terminei, encheu o peito de ar e partiu, sem…pio. Até o meu cão, o Ronnie, anda estranho. Os seus olhos escondem algo que não me quer dizer e quando me vê a sua cauda já não abana com a energia de outrora.

Estou triste! Porque será que uma jovem de 29 anos é acometida de um AVC ?! Aconteceu à Margarida, intervenção cirúrgica na tal sexta-feira. Também à Nanda (há uns anos mais atrás). Já o confessei, não sou crente. Faço parte daquele “grupo confortável” que são os agnósticos (nego tanto o Ateísmo como o Teísmo), nos momentos mais difíceis da vida, contudo, acredito que quem admite a existência de um ente superior (pode ser Deus), está mais protegido, tem onde se “agarrar”, com quem desabafar de um modo completamente intimo e privilegiado. Eu, recorro aos amigos, ás vezes, e muito à solidão do meu pensamento. Não é uma opção, é um sentir, é interior a mim mesmo, é a minha verdade.

Estou triste! Estudo leis (pelo menos tento)! Quanto mais estudo leis, menos conheço da vida. Não deveria ser assim, até sei que as leis acompanham (ou tentam acompanhar) a vida. Esta, a de hoje, que já foi ontem e há-de ser amanhã. As normas legais, são também condutas para a sociedade, são regras! Muitas são aplicadas à guisa de quem as aplica. Para ser mais claro, refiro-me às leis que regulam o Trabalho por contra de outrem. A crise que atravessamos, permite que pessoas sem escrúpulos disponham da vida de outras pessoas que delas dependem economicamente. Que pela força do seu trabalho, receba uma remuneração correspondente a um determinado horário de trabalho. Na prática, o que acontece é que se trabalha muito mais horas que o acordado, depois, são as pressões psicológicas e por fim, quando o contrato a termo está próximo, envia-se uma carta registada com aviso de recepção dizendo que o contrato vai caducar, não por o lugar que desempenhava se ter extinguido, mas por outros interesses poucos claros e mesquinhos. Pois bem, a pessoa até foi muito competente, foi mesmo muito competente. Fazia o seu trabalho, mais o da colega, ficava todos os dias a trabalhar até mais tarde, era proactiva (como agora se diz) e também reactiva e tudo isso. Um amigo meu tem uma teoria: a teoria do churrasco, e reza mais ou menos assim: o outro colega dava óptimos churrascos ao fim de semana e convidava o chefe, e outras pessoas que interessava o chefe conhecer e depois ia a outros churrascos onde estava o chefe mais as outras pessoas que interessava o chefe conhecer. A trabalhadora, a competente, foi despedida, a colega continuou a dar churrascos magníficos.

Olhem… estou triste! Queiram fazer o favor de desculpar!

Só mais uma coisa: Margarida, as tuas melhoras! Gostamos todos de ti e temos a certeza absoluta que vais recuperar definitivamente. Foi “apenas um mau momento que já passou”. Um Beijinho.

Para a "trabalhadora despedida", outro grande beijinho. Com a tua dedicação e o teu amor à profissão irás vencer!


Olhem… estou triste! Queiram fazer o favor de desculpar!

5 comentários:

Anónimo disse...

Tenho acompanhado a existência deste blog com a curiosidade natural da amizade existente com o "blogista" em causae sua família.
No entanto, até hoje, não me tenho pronunciado dando qualquer comentário de apoio a quem tanto o merece pelas excelentes abordagens e textos com que nos tem presenteado.
Só a mistura de tristeza e alegria com que hoje estou com a situção da Margarida (sim, também, eu a conheço...), me inspirou o suficiente para deixar aqui estas palavras.
E agora adicionalmente , pela trabalhadora competente!

Anónimo disse...

Upss!!!... Bem se vê que não estou muito habituada a estas coisas!!... Agora coloquei dois comentários iguais e nem sequer tinha terminado!!
Por favor, apague um...
Mas como ia dizendo, e agora, também, pela trabalhadora competente (sim, também, conheço...)
E tenho fé, muita fé, pelas duas!
E o elo de amigos é grande e forte para que nossos pensamentos se unam num só cheio de esperança por dias melhores!
Por último, apenas mais um comentário de apoio para que o "bloguista" não deixe nunca de escrever, aqui ou noutro local, pois o seu mérito é reconhecido:):) E faz bem à alma, certo?
Cumprimentos cordiais,
Anónima

manuel neves disse...

Bom. A tristeza trouxe-me uma amiga "anónima". Obrigado pelas suas palavras de encorajamento, obrigado também pela sua fé, como sabe, fé eu não tenho.Mas acredito no poder dos Homens de sabedoria, na técnica da medicina, da força titânica das Mulheres e sobretudo na verdade. Penso que sei quem é esta anónima, amiga de longos anos, de partilhas simples e cumplicidades várias, sempre ajudando mas escondendo quando necessita de ajuda.
Obrigado por ser como é! Conto consigo, como sempre. E, já sabe... conte comigo pró que der e vier!

Tozé Franco disse...

Um grande abraço de solidariedade para a Margarida, que não conheço, embora (in)felizmente tenha conhecido outras, e para a trabalhadora competente.
Correndo o risco de me repetir,parabéns por mais um texto cheio de sensibilidade e muito bem escrito.

manuel neves disse...

ToZé,
Quero-lhe agradecer em nome da Margarida a solidariedade manifestada, a trabalhadora também agradece.
A Margarida é uma colega de trabalho de trato simples e afável, querida por todos. E não sei muito bem porquê, a estas pessoas boas e simples, acontece sempre alguma...

Um Abraço!